Entrevista - Jairo Luiz Duarte de Camargo
A frente dos trabalhos da Polícia Civil de Piraí do Sul (PR), o delegado Jairo Luiz Duarte de Camargo, em entrevista exclusiva ao blog na manhã do dia 08/06/2011, explica como funciona o combate ao tráfico de drogas, comenta a estrutura do Estado na repressão e fala sobre o papel dos usuários, da comunidade e da lei na luta contra o crime.
Foto: Thais Ribas Bueno
O combate ao tráfico de drogas é um trabalho que busca um fim, um termo, ou é um trabalho constante?
Jairo - é um trabalho constante a repressão ao tráfico de drogas. Tem que ser um trabalho de forma que venha a unir a repressão realizada pela polícia, e a prevenção, que pode ter uma parte realizada pela polícia, mas também ter a participação de outros órgãos públicos envolvidos, na conscientização no problema das drogas. Após isso a polícia entra com ações de combate ao tráfico, ou seja, a repressão pelos órgãos do Estado. É um trabalho constante, que não tem fim. Quando se está combatendo o tráfico de drogas, automaticamente estão diminuindo crimes contra o patrimônio, crimes contra a vida. Porque normalmente o tráfico de drogas leva o usuário a praticar crimes contra o patrimônio para conseguir drogas para satisfazer o seu vício e também leva a brigas por pontos de venda de drogas, onde pode gerar crimes relacionados a homicídios.
Sabe-se que o Brasil não é um produtor de drogas. Não vemos fechamento de propriedades produtoras de maconha ou coca, por exemplo. Então como essas drogas chegam a uma cidade do interior, como Piraí do Sul?
Jairo - normalmente essa droga entra pela fronteira do Paraná. O Estado é um corredor no tráfico de drogas, que saem do Paraguai, passam pelo Paraná e chegam a São Paulo ou Rio de Janeiro. Temos também outros canais, como a Bolívia, Colômbia, mas que saem da rota do Paraná. Portanto a entrada da droga geralmente se dá por Salto del Guairá (PY) e por Ciudad del Leste (PY). É uma fronteira bem extensa, com uma dificuldade muito grande de fazer uma varredura minuciosa para que pudéssemos evitar que essa droga entrasse no país. Então fica claro que a droga vem de fora.
O governo federal como responsável por cuidar das fronteiras tem cumprido seu papel de maneira satisfatória?
Jairo - o governo federal e o governo estadual, em parceria, vêm tentando buscar ferramentas e novas formas que evitem que essa droga entre pelas fronteiras. Temos hoje uma atuação das Forças Armadas com poder de polícia na região de fronteira. Tem os trabalhos realizados pela polícia federal. A polícia militar tem uma unidade específica que trabalha na fronteira também. Todos somando esforços para que venhamos a evitar ou diminuir a entrada de drogas no País. Mas que é insatisfatório ainda, estamos ainda um pouco longe de chegarmos a essa qualidade.
A realidade é que as drogas chegam e não em pequena quantidade. A estrutura das polícias hoje é suficiente?
Jairo - na realidade quanto mais pessoas para administrar um problema desses facilitaria o combate à entrada dessas drogas. É um problema que não consegue se resolver em curto prazo, precisa de inclusão em orçamento, contratação de pessoas. O governo do estado tem mostrado que está nesse caminho, mas ainda precisamos pelo menos recuperar os quadros de uns dez, quinze anos atrás do efetivo da polícia.
Qual é o papel real do usuário nesse quadro?
Jairo - o usuário é a pessoa que movimenta todo o tráfico de drogas. Se não existisse usuário, não teríamos o tráfico de drogas. E como combater os furtos. Se tiver o receptador, obviamente vamos ter crimes contra o patrimônio. Caso contrário, combatendo o receptador vamos diminuir a prática de furtos, não tem quem comprar o objeto furtado. E o tráfico é a mesma coisa. Se nós combatermos realmente a prática do uso das drogas, automaticamente também vamos atrapalhar o comércio das drogas, vai ter uma queda na venda. Então temos que realmente bater em cima, a polícia tem que ter ações em cima dos usuários.
E a comunidade, qual é o seu papel? Como ela auxilia as autoridades?
Jairo – a segurança pública não é uma responsabilidade exclusiva da polícia. Mas de todos. Todos têm um papel importante no combate, principalmente ao tráfico de drogas. As pessoas têm diversos canais para que venham cooperar com a polícia. Temos o 181 (disque denúncia), que é do conhecimento de todos, que realmente é sigiloso, ninguém vai ser identificado quando estiver cooperando com a polícia e passando informações via essa ferramenta. A polícia trabalha única e exclusivamente através dessas informações que chegam, principalmente no crime de tráfico de drogas. Então é um papel de extrema relevância. Sem a ajuda da população nós não vamos conseguir fazer um trabalho eficiente contra as drogas.
Com o sistema legal aplicado hoje pela Justiça, ou seja, as leis atuais, um traficante a partir do momento em que é preso e retorna para a sociedade, vai se afastar do tráfico?
Jairo - acredito que é difícil a ressocialização de um traficante. Pelo que vemos na prática, quando um marido, vamos supor o chefe de família, acaba sendo preso por envolvimento com o tráfico de drogas, a esposa começa a fazer o tráfico, ou os filhos. É muito difícil recuperar um traficante.
Ou seja, seria uma questão social.
Jairo - é uma questão social. Sai da esfera da polícia. É um complexo de ações de diversos órgãos, diversos seguimentos da sociedade para que possamos recuperar um traficante, trabalhar a família dessa pessoa que ficou fora. Ter um trabalho em cima da própria família.
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